Zenilda Ribeiro
Escrever é um ato libertador e uma forma de me reinventar.
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As boas memórias

Esses dias, numa conversa com minha filha, me vi visitando alguns momentos da infância. A chave que abriu as portas para essa visita foi justamente uma daquelas famosas “marcas da infância” que tenho bem no meio da testa.

Minha mocinha gosta muito de mexer nos meus cabelos, de fazer penteados. Quando se cansa de pentear as bonecas, sobra para a mamãe. Faz parte do maternar. Outro dia, cheguei da cabeleireira e, ao ver meus cabelos escovados, ela cismou de fazer umas tranças. Imaginem.

Nossa conversa não começou por causa dos penteados, mas porque ela estava doente, sentada no meu colo. Enquanto eu lhe contava sobre as dificuldades que enfrentei, junto com meus irmãos, quando ficávamos doentes lá no sítio, separado da cidade por um largo braço de água, ela passava as mãos na minha cabeça.

Contei-lhe como minha mãe cuidava das nossas febres, com banhos mornos, compressas na testa, chás e outras receitinhas da sabedoria popular. Mas o remédio principal era o amor, o cuidado, a oração, a fé. Conversa vai, conversa vem, ela tocou numa cicatriz na minha testa. Vieram perguntas — e risadas, claro.

Depois desse momento, fiquei revirando a memória em busca de lembranças da queda que deixou a tal marca. O mais incrível foi que não me veio nenhuma memória da dor, do medo ou do sofrimento. As únicas imagens foram alguns flashes rápidos e curtos, mas cheios de significado: minha mãe, à noite, ao lado da minha rede, tentando, com um pano molhado, retirar as raspas de mato e folhas que colocaram no corte para estancar o sangramento. Lembro-me daquelas cenas com nitidez. Não lembro se sentia dor — lembro que era bom me sentir cuidada. É como se a sensação de prazer e bem-estar trazida por aquelas demonstrações de amor tivesse ficado impressa de forma tão profunda que apagou as lembranças da dor.

Percorrendo o caminho das memórias, fui também passeando pelas vivências de hoje. O tempo passou. Aquele tempo e o de agora. Minha pequena adormeceu nos meus braços. Fiquei a pensar em quantas dores carregamos, talvez porque, no momento da queda, do arranhão, do sangramento, não houve uma mão amorosa, com um paninho molhado, retirando a sujeira e trazendo alívio.

Penso que, no ambiente familiar, na escola ou no trabalho, precisamos sempre nos apoiar uns aos outros. Às vezes, um “senta aqui, no colinho da mamãe” pode ser o primeiro remédio de uma criança, independentemente da doença. Quantos de nós não saímos de casa para as lutas diárias precisando de um olhar que amenize a dor, a ansiedade, o medo de não ser aceito, a angústia da existência?

Vivemos em um mundo que nos afasta tanto — com a falsa ideia de que nos aproxima —, já que, por meio das mídias digitais, conversamos com pessoas que estão do outro lado do mundo. O que está distante, às vezes, é o que temos mais perto: nós mesmos.

Quantos de nós temos histórias de sofrimento e superação e, ao olharmos com mais ternura, percebemos que sempre houve alguém, um pet, um lugar que nos acolheu de forma tão profunda, que, ao lembrarmos os momentos de dor, são essas imagens amorosas que permanecem. Eis a importância das memórias afetivas: as que nascem na infância, no lar, com os amigos; as que criamos no trabalho, numa pausa para o café ou para uma boa conversa.

Dizia São João da Cruz: “No entardecer da vida, seremos julgados pelo amor.”

As memórias que construímos com os nossos poderão nos conduzir a um entardecer mais feliz — mesmo com os sofrimentos. São elas que nos fortalecem. E você, qual memória afetiva lhe veio à tona agora?

 

Zenilda Ribeiro
Enviado por Zenilda Ribeiro em 07/10/2025
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