Ontem, na seção eleitoral onde votei, vivi um momento que me trouxe até este texto. Ao entregar meus documentos para a mesária conferir, vi nos olhos dela e dos demais naquela mesa uma admiração quase devocional para a minha Carteira Nacional Docente do Brasil (CNDB). Pediram-me para tocá-la, para segurá-la. A cena me comoveu. Mais que isso: fez-me viajar no tempo, conduzindo-me para o lugar onde nasci e para aquele tempo.
A emoção e a curiosidade daqueles professores que ali trabalhavam voluntariamente, para que as eleições pudessem acontecer e as pessoas pudessem exercer esse direito ao voto, também me tocaram. Para mim, mulher, esse direito chegou a pouco mais de 90 anos. E saber que algumas de nós andaram por aí dizendo-se contra o voto feminino me fez pensar ainda mais sobre os caminhos que percorremos.
Mas, voltando ao nosso papo sobre a CNDB, — permita-me usar a sigla, já que vivemos sempre na pressa encurtamos até o tempo da leitura —, o que mais me comoveu foi o fato de que, embora já a tivesse recebido há algum tempo, aquela era a minha primeira vez que a usava como documento de identificação. E logo naquele dia, naquele lugar, onde vivi o início da minha trajetória na Universidade e que, por questões financeiras e familiares, precisei interromper.
Eu estava no bloco de salas da UFPB onde, em 1996, iniciara o curso de Economia. O tempo que passei na fila já havia mobilizado, dentro de mim, muitos movimentos. Memórias passeavam pela minha mente.
A mesária quis saber sobre os benefícios da carteira e ainda brincou: “É bom pra gente dar uma carteiradas por aí”. Listei alguns. Ela se interessou ainda mais. Mas o maior benefício que CNDB me traz é outro: saber onde estou e como cheguei até aqui.
É saber que essa mulher de 52 anos nasceu ainda nos tempos sombrios da ditadura militar e que, quando criança, não tinha acesso à escola: morava na zona rural e não havia políticas públicas que permitissem aos filhos de agricultores se deslocar até a cidade para estudar. Esta carteira docente não chegou até mim por meritocracia, como alguns talvez queiram dizer. Ela carrega histórias de lutas, de oportunidades que não existiam e de caminhos que só se abriram porque, em determinados momentos, políticas públicas fizeram a diferença.
É muito difícil ultrapassar determinadas barreiras, quando não se tem políticas públicas que nos apoiem. Vontade nós tínhamos. Sonhos também. Minha mãe batalhava por uma sala de aula para que as crianças e jovens daquela redondeza pudessem estudar. Mas o poder público era omisso.
Depois, já no início da adolescência, tive o apoio de uma congregação religiosa, onde vivi uma experiência de seis anos e pude estudar. Foi ali que aprendi a gostar de ler — não apenas livros, mas a vida, os acontecimentos, os cenários políticos, principalmente.
Hoje, ser uma professora concursada, Mestre em Letras, mãe de uma menina de 10 anos fala muito sobre o lugar de onde eu saí, sobre as braçadas que precisei nadar e as remadas para atravessar aquele mar de dificuldades. Mas fala também deste lugar onde estou e das políticas educacionais que contribuíram para que eu pudesse chegar até aqui.
A professora que fala com você neste texto cursou Letras pela UFPB, na modalidade EAD, graças ao programa de Universidade Aberta do Brasil, instituído em 2006, no governo do presidente Lula. Após concluir a graduação e me tornar professora da rede estadual, por meio de um concurso público, fiz o Mestrado Profissional em Letras, programa criado no segundo mandato do presidente Lula e que teve seu lançamento em 2012, no governo da Presidenta Dilma.
É. Aquela mesária tinha razão em falar da “carteirada”. Essa carteira tem história. Ela agrega muito sentido às histórias que me trouxeram até aqui.
E é com essa carteira — ou melhor, a partir do lugar que ela simboliza e me permite ocupar — sem dar carteiradas, que busco abrir portas para aqueles e aquelas que, como eu, se esforçam, têm sonhos, mas precisam de políticas públicas para seguir ocupando seus espaços e escrevendo suas histórias.