A minha mãe tinha Alzheimer. Estava quase sempre no passado, nos pedindo para levá-la de volta para a casa dela. Tentando compreender melhor aquela situação trazida pela doença li muito, ouvi podcast, assisti a vídeos. Comecei a entender que talvez a casa para onde ela queria voltar pudesse simbolizar um tempo do passado em que ela se sentia segura, confortável. A casa dos pais? A infância? Tempos da vida adulta em que ela se reconhecia e tinha autonomia? Talvez.
Muitas vezes, ela não me reconhecia. Mas nunca esqueceu a neta, minha filha. Para ela, sempre abria um sorriso. Mesmo nos dias de maior demência, sem falar, sem se comunicar, a presença da neta a alegrava e a trazia de volta para nós.
Depois, nas leituras que fiz sobre a doença, fui entendendo que talvez minha mãe não estivesse exatamente tentando voltar para uma casa. Talvez estivesse tentando voltar para um tempo. Um tempo em que reconhecia os lugares, as pessoas, a si mesma. Um tempo em que se sentia segura. E comecei a pensar se nós, como sociedade, também não passamos boa parte do tempo tentando voltar para lugares que já não existem — ou para tempos que talvez nunca tenham sido tão seguros quanto imaginamos.
Parece que padecemos de uma espécie de amnésia coletiva. É como se o cérebro ficasse repetindo a mesma pergunta por não registrar a resposta. E passamos a insistir em voltar a um tempo do passado, mesmo que esse tempo tenha sido sombrio, carregado de dores e sofrimentos. Como se o percurso feito até aqui, as lutas travadas, as vidas perdidas nesses enfrentamentos, tivessem escapado totalmente da nossa memória recente.
Essa memória social começa a ser destruída pelo acúmulo de informações tóxicas, carregadas de ódio, desprovidas (na maioria das vezes) de contextualização e de fundamentação em fatos. Parece que o nosso “hipocampo social” anda sendo destruído à medida que temos mais pessoas conectadas às redes sociais, alimentando a mente com informações rápidas, desconexas. Penso que um remédio para essa patologia seria a leitura. Além de trazer conhecimentos, funciona como uma ótima atividade para o cérebro e para manter a capacidade crítica e reflexiva funcionando bem.
Talvez esse apagão venha gerando uma perda de identidade coletiva, um desligamento dos valores, uma perda de esperança. Parece que vai acontecendo uma mistura de tudo ou a ausência de muita coisa na mente. As referências continuam aí, mas será que ainda temos tempo e disposição para buscá-las? Vivemos na pressa, presos a conteúdos que muitas vezes pouco acrescentam, mas nos roubam de nós mesmos. O vazio se instala. O medo ou a falta dele se faz presente. A indiferença cresce, e as relações sociais se desgastam. Criamos bolhas e nos fechamos nelas, talvez em busca de proteção ou para fugir daquilo que nos angustia. Estamos confusos. Talvez essa seja a palavra que nos define.
Penso que é justamente nesse contexto que a arte e a literatura se fazem urgentes. Elas operam em nós uma espécie de catarse: rasgam o véu da nossa anestesia social e nos ajudam a organizar o caos dos nossos afetos, devolvendo-nos a capacidade de sentir e lembrar. O livro, a poesia, a música — cada manifestação artística pode despertar aquilo que, em nós, parecia adormecido: a sensibilidade diante de nós mesmos e do mundo.
Talvez esse caminho de volta, essa tentativa de nos reconectarmos com o que já fomos, o que somos e o que podemos nos tornar, comece justamente naquilo que ainda nos liga uns aos outros. Penso na presença acolhedora e amorosa que minha filha despertava na minha mãe, mesmo nos momentos de apagão e confusão.
A arte pode ser esse sorriso de neta que nos resgata do esquecimento e nos traz de volta para nós mesmos.